[University home]

School of Social Sciences

O projeto

As recentes pesquisas genéticas têm estimulado debates sobre a existência e a utilidade de raça e etnicidade enquanto categorias médicas e biológicas. Contudo, há a preocupação quanto à possibilidade de que as diferenças humanas em aparência (fenótipo) e características genéticas e de saúde possam ser demasiado simplificadas no âmbito do emprego de categorias raciais nas pesquisas, o que pode gerar exclusão social e afastamento da cidadania plena.

Este projeto envolve uma análise comparativa dos modos pelos quais as idéias de raça e etnicidade interagem com a pesquisa genômica em três países latino- americanos – México, Colômbia e Brasil. Nos últimos anos, em todos esses três países, laboratórios de genética molecular vêm mapeando os genomas de populações locais, com o objetivo amplo de avançar na compreensão dos componentes genéticos de certas doenças. As populações com “mistura” genética são pensadas enquanto úteis para o propósito de mapeamento de genes. Povos latino-americanos mestiços ou “racialmente misturados”, resultante de séculos de interação entre europeus, africanos e indígenas, têm sido de particular interesse. Como parte disso, os laboratórios vem traçando a ancestralidade racial e étnica dessas populações utilizando técnicas de seqüenciamento de DNA. De forma explícita, os cientistas frequentemente ligam seus achados a questões de identidade nacional, diferença étnico-racial e racismo, capturando a atenção da mídia e estimulando o debate público sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo, a “mistura” latino-americana vem sendo defendida por alguns como o antídoto ao racismo, o que tem ganhado popularidade em muitos círculos. . Contudo, as idéias de diferença racial podem ser reforçadas através da “mistura” e dos estudos genéticos de mistura.

Este projeto visa explorar como a reflexão étnica e racial entra nesses empreendimentos científicos e se são reproduzidos, desafiados e/ou reformulados por eles. O potencial de vincular raça/etnicidade e doença via genética, é uma das áreas de atenção. Durante a fase 1 do projeto (janeiro de 2010 a julho de 2011, financiada pela ESRC) foram examinadas, de modo preliminar, as formas pelas quais os resultados das pesquisas genéticas penetram no domínio público – principalmente através das proposições dos cientistas e da cobertura da mídia – e interagem com ideologias referentes à raça, etnicidade e identidade nacional.

A fase 2 do projeto (julho de 2011 a março de 2013, financiada pela Leverhume Trust) dará maior atenção a este aspecto, ou seja, aos modos pelos quais os resultados da pesquisa entram no domínio público – por exemplo, através das declarações dos cientistas, da cobertura da mídia, das reações das populações das quais foram tiradas amostras (indígenas, negros, mestiços, brancos, etc.) – e interagem com as ideologias existentes acerca de raça, etnicidade e identidade nacional. Essa interação será examinada no contexto das mudanças em todos os três países, os quais nas últimas duas décadas tem se movido em direção ao multiculturalismo oficial e à institucionalização das diferenças étnico-raciais na legislação e na cidadania. O modo pelo qual a ciência cria novas comunidades genéticas imaginadas, as quais se fragmentam e/ou reúnem ao longo de linhagens étnico-raciais, possui importantes implicações para a cidadania e a inclusão/exclusão social, especialmente no contexto do multiculturalismo.

O aspecto comparativo do projeto está vinculado à necessidade de avançar o crescente reconhecimento entre os estudiosos de que a “América Latina” é internamente heterogênea em termos de suas categorias étnico-raciais. A região (normalmente via a representação do Brasil) tem sido tradicionalmente contrastada com os EUA em termos de relações raciais, mas há uma enorme variação dentro da América Latina. A noção de “mistura” de raça (mestizage, em espanhol) como a base para identidade nacional é uma ideologia transnacional na região, embora México, Colômbia e Brasil tenham diferentes histórias de desenvolvimento da mestiçagem como uma ideologia de construção da nação (“nation building”) e o conceito tem distintas ressonâncias em cada país. A forma pela qual o multiculturalismo é institucionalizado também varia nos três países. O desenvolvimento de investigações científicas e, em seu interior, de pesquisas genéticas, está necessariamente articulado com um cenário global, mas cada país também possui uma história social particular de desenvolvimento da ciência e da genômica. A análise comparativa explorará como a variação nacional na mestiçagem e na institucionalização da pesquisa científica molda o modo pelo qual a pesquisa genômica interage com idéias sobre raça/etnicidade, “mistura” de raça e identidade nacional.

 

 

English | Español